O pensamento alternativo e a cidade onde nasci

18/09/2013


              O pensamento alternativo e a cidade onde nasci
 
          Esta página tem o timbre de minha cidade natal. Exalta o Dia de Cachoeiro, a mais antiga festa criada com a finalidade de congraçar filhos ausentes e filhos presentes de uma cidade.
          Fui Cachoeirense Ausente Número 1 de 1985. Batistinha (Demistóclides Baptista), o grande líder sindical e político, um dos primeiros cassados em 1964, meu colega de turma na Faculdade de Direito, tinha sido o Cachoeirense Ausente Número 1 de 1984. Ao pé do busto de Newton Braga, naquela manhã de 29 de junho de 1985, eu conversava com Batistinha, ele também homenageado pela Terra Natal quando já despido de poder. Conjeturávamos sobre o que o Poeta Newton Braga sonhou devesse ser Cachoeiro.
          Não desejo que esta página fale apenas aos meus conterrâneos. Que ao ler este texto, cada leitor reponha na retina a imagem de sua Cidade Natal.
          Fala-se em Direito Alternativo, Medicina Alternativa, Filosofia alternativa de vida.  Mas o que é afinal “alternativo”?
          Aurélio pode ajudar um pouco.  Segundo o dicionarista, alternativo é o que se diz ou faz com alternação; alternação é o ato ou efeito de alternar; alternar é colocar em posições recíprocas, dispor em ordem alternada. (Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Curitiba, Editora Positivo.)
          Na linguagem corrente, diz-se que alternativo é tudo aquilo que se propõe como opção diante do que estava sedimentado, consagrado, estabelecido.
          Um sistema alternativo de ideias pode não conter toda a verdade, mas pode conter uma parte da verdade.  A meu ver seria conveniente sempre examinar com cuidado, nunca relegar com desprezo e preconceito o que se apresenta como novo. O exame da proposta inovadora pode conduzir a inteligência a uma aceitação irrestrita, a uma recusa absoluta ou a uma aprovação parcial do que se propõe.
          A rejeição pura e simples de tudo aquilo que pode mudar nossas categorias de pensamento revela conservadorismo, falta de arrojo, comodismo.
          A História tem caminhado pela força das propostas alternativas, ou seja, pela força de ideias que não se enquadravam, no momento em que foram defendidas, ao modelo dominante.
          Jesus Cristo foi alternativo, em relação às ideias religiosas de seu povo, no seu tempo.  Embora tenha dito que não veio destruir a lei (mosaica) e os profetas, trouxe uma revolução na exegese (isto é, na interpretação) que se fazia da lei e do ensino dos profetas. Os sacerdotes de seu tempo tinham feito do sábado uma instituição que precedia todos os valores e considerações.  O Cristo discordou: não foi o homem feito para o sábado; o sábado é que foi feito para o homem.
          Gandhi foi um alternativo, em relação à organização social da Índia. Combateu o sistema de castas e afirmou, contra as ideias estabelecidas, a igualdade fundamental de todas as pessoas.
          Luther King foi um alternativo em face da maioria branca e dominante da sociedade americana.  Quando a grande maioria aplaudia ou via como natural a segregação racial, Luther King levantou-se contra o sistema discriminatório.
          Nasci em Cachoeiro de Itapemirim, uma cidade onde o pensamento divergente sempre circulou como senha de inteligência.  Newton Braga, símbolo de minha terra, foi um alternativo, no seu modo de viver. Renunciou a um cartório (vida financeira tranquila), porque um juiz quis obrigá-lo a usar gravata durante todo o expediente. Recusou-se a sair de Cachoeiro para tornar-se tão famoso quanto o irmão (Rubem Braga) porque não podia viver longe do marulho das águas de seu rio (o Itapemirim). 
Criou uma festa, que é mais que uma festa – é um poema: o Dia de Cachoeiro. Uma festa alternativa porque baseada:
no afeto mais puro (uma festa de amor e de doçura);
na igualdade das pessoas (tanto pode ser Cachoeirense Ausente  um tipógrafo, como Trófanes Ramos; um cantor, como Roberto Carlos; ou um empresário, como David Cruz);
no ineditismo da proposta (a primeira cidade no Brasil e no mundo que consagrou um dia ao reencontro dos filhos ausentes).
Por mais incrível que pareça (quem não conhece Cachoeiro dirá que isto é bairrismo exagerado), mesmo os cachoeirenses que não podem ir à festa lá comparecem, espiritualmente, com sua afetividade. Imaginam o desfile escolar na Rua Vinte e Cinco de Março (já sem o prédio da “Escola de Comércio”, estabelecimento de ensino fundado em 15 de agosto de 1932 por meus Pais – Alfredo Herkenhoff e Aurora Estellita Herkenhoff). Nossa “Escola” educou gerações e mais gerações de jovens em minha terra natal. Emocionam-se, com o coração vibrante, na noite de vinte e nove de junho, por mais distante que o corpo físico esteja, porque naquela noite, na Praça Jerônimo Monteiro, o Cachoeirense Ausente Número 1 estará recebendo a maior glória que pode ser tributada a quem nasceu em Cachoeiro. O Cachoeirense Ausente Número 1 vem sendo escolhido, ininterruptamente, desde 1939, ano da primeira celebração do Dia de Cachoeiro.
          Neste final de página, estou a me lembrar das homenagens que a mim mesmo foram prestadas, como Cachoeirense Ausente Número 1 de 1985. Recém-aposentado na magistratura, despojado totalmente de poder, apenas um professor, era bem a síntese do que Newton Braga sonhou devesse ser a “República de Cachoeiro”: um pedaço de chão que recusa a hierarquia dos falsos valores reinantes; uma cidade que é utopia, projeto de mundo novo, contorno simbólico de uma sociedade alternativa.

(Este texto integra o livro "Ética e Direito", que o autor está primeiramente divulgando neste site. Depois a obra será confiada a uma Editora para publicação em papel, da forma tradicional).
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